Sistema de Abastecimento de Água

Dentro da área do saneamento ambiental, o Sistema de Abastecimento de Água (SAA) é  essencial para assegurar o acesso da população aos recursos hídricos com qualidade e na quantidade necessárias para atender às demandas da população.

Hoje, no Brasil, embora o índice de atendimento total com água potável seja de 83,5% da população, os sistemas de abastecimento ainda enfrentam grandes deficiências em relação à manutenção das instalações, vazamentos e instalações irregulares.

Dentro da Engenharia Civil, os estudos dos sistemas de abastecimento de água são previstos na NBR 12211, e é esse o tema do artigo de hoje!

De acordo com Leo Heller, engenheiro civil e autor do livro Abastecimento de Água para Consumo Humano, a “boa engenharia ” é aquela capaz de enxergar mais de um caminho para a solução de um problema, de ponderar os aspectos positivos e negativos de cada caminho e de tomar decisões as mais conscientes possíveis.

Então, continue lendo e vamos discutir um pouco sobre como deve ser feita a concepção de um Sistema de Abastecimento de água eficaz e econômico.

O que é um Sistema de Abastecimento de Água?

Segundo a NBR 12218/2017, um Sistema de Abastecimento de Água é um conjunto de instalações destinadas a captar, tratar, reservar e distribuir água, compreendendo as unidades operacionais necessárias ao abastecimento.

Para concepção do sistema, deve-se conhecer os seus diversos componentes:

  • Manancial: corpo de água superficial ou subterrâneo, de onde é captada a água para abastecimento. É necessário que atenda às condições de vazão de projeto e de qualidade da água.
  • Captação: conjunto de estruturas e dispositivos, construídos ou montados junto ao manancial, para retirada de água.
Captação de água no rio São Francisco.
Captação de água no rio São Francisco. Fonte: Embasa.
  • Estação elevatória: conjunto de obras e equipamentos destinados a recalcar a água para a unidade seguinte. Geralmente, dentro de um SAA, há várias estações elevatórias, tanto para recalque de água bruta quanto tratada.
  • Adutora: canalização que precede a rede de distribuição, logo não distribui água aos consumidores. Existem adutoras de água bruta e de água tratada.
  • Estação de tratamento de água: conjunto de unidades destinado a tratar a água de modo a atender padrões de potabilidade (Leia nosso artigo sobre o Tratamento Convencional).
  • Reservatório: destina-se a regularizar as variações entre as vazões de adução e de distribuição e condicionar as pressões na rede de distribuição.
  • Rede de distribuição: parte do sistema de abastecimento de água formada de tubulações e órgãos acessórios, destinada a colocar água potável à disposição dos consumidores, de forma contínua, em quantidade e pressão recomendada.
Exemplo esquemático de rede de abastecimento de água.

Estudo de concepção de SAA

O estudo de concepção de um sistema de abastecimento de água consiste no desenvolvimento de algumas atividades, como:

Caracterização da área de estudo

Características físicas: mapa de localização, principais vias e estradas de acesso, vegetação, topografia;

Uso e ocupação do solo: planos diretores, áreas protegidas ambientalmente, uso e ocupação atual do solo;

Aspectos sociais e econômicos: caracterização do mercado de trabalho e mão de obra disponível, distribuição de renda;

Sistemas de infraestrutura e condições sanitárias: abastecimento de água, esgoto sanitário, saúde, sistema viário, energia elétrica.

Análise do SAA existente

Inicialmente, é realizada a descrição desse sistema através da identificação de todos os seus elementos com planta geral, croqui e descrição de todas as unidades que o compõem, apresentando tipo, processo, diâmetro, capacidade e potência.

Em seguida, faz-se o diagnóstico das unidades do sistema com cálculos de verificação de capacidade, aspectos de conservação, desempenho e dificuldades operacionais. Além disso, avaliam-se a área e a população atendida, assim como o nível desse atendimento, regularidade de abastecimento, consumo, número de ligações, perdas de água no sistema, manejo de resíduos e qualidade da água bruta e tratada.

Levantamento de estudos e planos existentes

Nessa atividade, deve-se identificar e analisar criticamente todos os estudos, projetos e planos existentes que interfiram nesse estudo, a fim de embasar parâmetros, critérios e alternativas a serem propostas.

Estudos demográficos e de uso e ocupação do solo

Para definir a área que será atendida deve-se observar os dados censitários da região, a evolução do uso do solo e zoneamento da cidade, a situação socioeconômica do município, as projeções da população urbana baseada em métodos matemáticos, analíticos e outros (ano a ano) e o plano diretor da cidade.

Critérios e parâmetros de projeto

São eles: consumo per capita, coeficientes de variação das vazões (K1, K2, K3), coeficiente de demanda industrial, níveis de atendimento no período de projeto, alcance do estudo.

Vale ressaltar que cada critério e parâmetro considerados  devem ser devidamente justificados.

Demanda de água

O estudo da demanda consiste na análise do consumo e sua distribuição nas categorias residencial, comercial, pública, industrial e especial, no consumo per capita ou por economia e no consumo comercial, público, industrial e especial.

O cálculo da demanda média, máxima diária e horária, por sua vez, deve ser apresentado ano a ano, por setor de abastecimento e sazonalidade, e distribuído em: residencial, comercial, pública, industrial e especial.

Estudo de mananciais

A escolha do manancial a ser utilizado para o abastecimento da população terá impacto significativo sobre a tecnologia e os custos necessários para a implantação do sistema de abastecimento de água, influenciando nos aspectos técnicos e ambientais. Em geral, os mananciais usados para abastecimento de água são divididos em 2 grupos:

  1. Mananciais superficiais 
  2. Mananciais subterrâneos

O estudo dos mananciais superficiais envolve o estudo das bacias hidrográficas da região, avaliando características hidrológicas, sanitárias e ambientais da bacia. Como regra geral, a captação em mananciais superficiais oferecem a água de maneira mais “fácil”, reduzindo os custos com a parte de captação do sistema. Por outro lado, as águas superficiais tendem a ser mais poluídas, o que exigirá mais gastos com a etapa de tratamento de água.

Já o estudo dos mananciais subterrâneos envolve o levantamento dos poços existentes, avaliação das condições hidrogeológicas e as condições de recarga dos aquíferos. Por estarem naturalmente protegidos, os mananciais subterrâneos tendem a oferecer água de maior qualidade, porém, é comum exigirem maiores despesas com a captação, especialmente quando se tratar de lençóis profundos.

Formulação das alternativas de concepção

Após a realização de todos os estudos, parte-se para a elaboração das alternativas de concepção, onde devem constar os aspectos locacionais, tecnológicos e operacionais, descrevendo-se todas as unidades componentes do sistema.

Além disso, devem ser também apresentadas alternativas de aproveitamento total ou parcial dos sistemas existentes.

Por fim, em cada alternativa devem ser avaliados os impactos ambientais negativos e positivos das diversas fases de implantação e operação do empreendimento, como também os aspectos legais junto às entidades competentes.

Pré-dimensionamento das unidades dos sistemas considerados para a escolha da alternativa

No pré-dimensionamento das unidades do sistema, é obrigatório constar todo o memorial de cálculo e elementos gráficos para o entendimento, assim como a localização – prevista ou definitiva – de cada unidade. É importante que o pré-dimensionamento considere áreas de desapropriação, áreas de preservação ambiental e outras interferências que possam afetar o projeto final.

Além disso, o projeto de concepção deve considerar, onde possível, alternativas tecnológicas para avaliar o desempenho e diferenças de custo.

Estimativa de custo das alternativas propostas

A estimativa de custo deve considerar os custos operacionais, custos de manutenção, custos de desapropriação e custos das medidas mitigadoras e compensatórias de cada alternativa estudada.

Para isso deve-se elaborar as planilhas do orçamento, memoriais de cálculo e eventuais composições de custo de serviços.

Análise das alternativas propostas

Para a escolha da melhor alternativa, deve-se realizar estudo técnico, econômico e ambiental.

A análise técnica: compatibilidade entre a tecnologia empregada, equipe operacional necessária, flexibilidade operacional, vulnerabilidade do sistema ao longo da vida útil esperada, prazo de execução etc.

Análise econômica: estudo econômico a valor presente dos correspondentes investimentos previstos e das despesas de exploração e manutenção durante a vida útil dos componentes de cada alternativa, adotando a taxa de desconto e o período do estudo definido pela contratante.

Análise ambiental: identificar e avaliar os principais impactos inerentes a cada alternativa estudada e que podem ocorrer em função das diversas ações previstas para a implantação e operação do empreendimento.

Concepção escolhida

Por fim, depois de analisar todas as alternativas e escolher a melhor entre elas, deve ser elaborado o projeto hidrossanitário das unidades componentes do sistema.

Neste projeto deverá conter além dos estudos já elaborados, os levantamentos topográficos e geotécnicos, a delimitação de áreas a serem desapropriadas, faixas de servidão e áreas de proteção ambiental. 


Os sistemas de abastecimento de água são fundamentais para garantir o direito ao saneamento básico da população, além de contribuírem significativamente para o desenvolvimento econômico da região. Assim, antes de construir o SAA propriamente dito, analisar a situação e conceber sistemas adequados é essencial para obter um sistema econômico, eficaz e moderno, que se adeque às necessidades da região.

Para ler mais!

Manual Funasa

NBR 12211:1992 – Estudos de concepção de sistemas públicos de abastecimento de água.

NBR 12218:2017 – Projeto de rede de distribuição para abastecimento público.

TSUTIYA, M. T. Abastecimento de água. 3ª ed. São Paulo, 2006. 643 p.

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