Redes de esgotamento sanitário

As redes coletoras são uma das partes integrantes do sistema de esgotamento sanitário de uma cidade. Assim como as Estações de Tratamento de Esgotos (ETEs), as redes coletoras são fundamentais para manter o saneamento básico adequado e eficiente nos centros urbanos.

Diagrama dos elementos constituintes de um sistema de esgotamento sanitário.

As redes coletoras englobam diversos elementos, que juntos são responsáveis por garantir o escoamento do efluente líquido. Contudo, estes equipamentos estão sujeitos à degradação, exigindo que sua operação e manutenção sejam feitos de maneira regular – evitando transtornos futuros!

Assim, o artigo de hoje irá abordar os elementos constituintes das redes, a concepção de um bom traçado e o plano de operação e manutenção adequados para o funcionamento pleno do sistema!

Elementos constituintes

A rede coletora de esgoto é composta por várias partes: ligações prediais, coletores de esgotos, coletores tronco e órgãos acessórios.

As ligações prediais são tubulações responsáveis por receber as contribuições diretamente dos lotes e conduzi-las para os coletores de esgotos; em seguida, os coletores tronco recebem as vazões coletadas de todos os coletores de esgotos para direcioná-los para o interceptor, que destina os efluentes para o emissário. Este último não recebe contribuições ao longo do seu comprimento e a partir dele os efluentes são conduzidos para a ETE.

Existem ainda os órgãos acessórios que são instalados ao longo da rede coletora. Eles têm como finalidade evitar ou minimizar os entupimentos em pontos singulares das tubulações e auxiliar na operação e manutenção da rede coletora. Os principais órgãos acessórios utilizados são:

  • Poços de visita (PV): câmara visitável através de abertura existente em sua parte superior, destinada à execução de trabalhos de manutenção.
Corte de um Poço de visita em concreto.
Corte de PV em concreto.
  • Tubos de inspeção e limpeza (TIL): dispositivo não visitável que permite inspeção e introdução de equipamentos de limpeza.
Til Radial Rede | Tigre
TIL radial em PVC.
  • Terminais de limpeza (TL): dispositivo que permite a introdução de equipamentos de limpeza, localizado na cabeceira de qualquer coletor.
  • Caixa de passagem (CP): tem como funções receber o lançamento dos efluentes das várias casas ao ramal, permitir o acesso dos agentes de limpeza e desobstrução e tornar viável os ângulos no percurso do ramal, que o flexibiliza para a recepção de contribuições e o desvio de obstáculos. 

Os condutores e os órgãos acessórios utilizados nas redes coletoras são produzidos em diversos materiais, sendo os principais: PVC, PEAD, aço, cerâmica, concreto e ferro fundido. 

A escolha dos materiais a serem utilizados depende do tipo de esgoto, dos métodos utilizados na construção, dos esforços a que estará sujeita a tubulação, dos diâmetros disponíveis no mercado e dos custos de material, transporte e assentamento.

Traçado

Para um traçado eficiente, o primeiro ponto a ser observado é a topografia da região, devendo-se desenvolver as redes em sentido favorável. Ou seja, o sentido de escoamento deverá partir da região mais alta para a mais baixa, de modo a economizar com estações elevatórias.

Representação do traçado de uma rede coletora de esgoto.
Representação gráfica do traçado de uma rede coletora fictícia.

O traçado da rede em passeios (calçadas) é permitido apenas se estes tenham largura suficiente para comportar a escavação necessária para a instalação da rede. Em casos de ruas com tráfego de veículos leve a moderado, deve-se prever o seu traçado em um dos terços médios no leito carroçável.

Os coletores troncos e interceptores (redes de maior porte!) deverão ser preferencialmente locados em vias e áreas públicas com baixo fluxo de veículos e/ou baixa interferência.

No traçado da rede coletora devem-se apresentar os obstáculos superficiais e subterrâneos, a fim de se planejar a execução.

Por fim, não deverão existir trechos a jusante com diâmetros menores do que os trechos a montante.

Problemas 

Entupimentos

Um dos problemas mais comuns em redes de esgotamento, que é ocasionado principalmente por mau uso dos usuários. Como discutido anteriormente, os coletores são projetados para operar com vazões predeterminadas, buscando a máxima eficiência. Assim, quando são lançados materiais grosseiros ou resíduos sólidos em algum ponto das redes, podem ser causadas obstruções no fluxo.

As obstruções – ou entupimentos – levam à redução da eficiência do transporte, podendo até mesmo inutilizar aquele trecho de rede, provocar refluxos nos imóveis ou levar a extravasamento nos PVs. Para solucionar esse problema, a solução mais comum é utilizar um arame de aço para remover mecanicamente o entupimento.

Fotografia de operários realizando o desentupimento em uma boca de lobo.

Caso não seja suficiente, outras opções são a utilização de bombeamento a vácuo e hidrojateamento. Em casos mais graves, a solução final é a escavação do trecho danificado e substituição por um novo coletor.

Incrustação

De maneira similar aos entupimentos, as incrustações se acumulam na seção transversal dos coletores e afetam o escoamento. Contudo, a diferença deste problema para o anterior é a origem: as incrustações são causadas pelo acúmulo de gordura, quando o esgoto não passa pela caixa de gordura antes de entrar no coletor predial. Nesses casos, a solução é a mesma dos entupimentos: hidrojateamento, bombeamento a vácuo ou substituição da tubulação – nos casos mais graves.

Fotografia de operação de limpeza em poço de visita de esgoto.

Vazamentos

Em geral, os vazamentos são causados por problemas estruturais ou executivos nas redes. Por exemplo, podem ser resultado de corrosão das tubulações ou problemas na execução das juntas. Associados aos vazamentos, também podem ser observados problemas de extravasamento, principalmente em PVs e caixas.

Fotografia de um PV em situação de extravasamento.

Esse extravasamento costuma estar associado às ligações pluviais feitas em redes de esgoto. Estas ligações – que não deveriam ser feitas! – provocam a sobrecarga dos coletores, levando ao extravasamento. Este problema pode ser um sério risco à saúde da população, ocasionando casos de doenças por contato com o esgoto.

Corrosão e odores

A geração de odores ofensivos encontrados em esgoto sanitário é, em geral, resultante da decomposição anaeróbia de matéria orgânica contendo enxofre e nitrogênio e pela redução de sulfatos a sulfetos. Essas substâncias, quando em concentrações elevadas, são responsáveis pela corrosão e são tóxicas ao homem, representando perigo aos operadores da rede.

O gás sulfídrico é um dos mais perigosos, por formar ácido sulfúrico e danificar as paredes das tubulações de concreto. Este gás é produzido quando há formação de limo nas paredes internas dos coletores, cuja formação é favorecida por velocidades baixas de escoamento. Para evitar esse problema, é importante garantir a declividade e limpeza periódica dos trechos críticos.

Fotografia de uma tubulação de esgoto com avançado estado de corrosão.

Ligações clandestinas

Outro grande problema que a gestão de sistemas de esgotamento sanitário enfrenta é a constante luta contra as ligações clandestinas nas redes coletoras de esgoto. Essas ligações trazem diversos problemas para todo o sistema de coleta e tratamento de esgoto. Os principais problemas são:

  • Alteração da vazão projetada;
  • Aumento da possibilidade de obstrução;
  • Aumento do tempo de funcionamento do conjunto motor e bomba das estações elevatórias;
  • Interferência na eficiência do processo de tratamento;
  • Perda de faturamento e aumento da despesa de manutenção da empresa concessionária.

Além disso, podem ser gerados transtornos tanto aos usuários do sistema como, por exemplo, o retorno de efluente pela ligação predial, quanto ao meio ambiente, ao ocorrer vazamentos e consequentemente contaminação do solo e do lençol freático.

É necessária uma constante fiscalização por parte da concessionária, bem como uma rápida atuação (corte e recuperação dos coletores danificados) ao ser identificada a ligação clandestina, para que se minimize ou evite os danos ocasionados por esta atividade ilegal.

Fotografia de uma equipe de investigação de ligações clandestinas.
Investigação de ligações clandestinas por meio de câmeras

Planejamento de operação e manutenção

Uma ferramenta do planejamento de operação é o Plano de Inspeção, que objetiva a identificação de eventuais problemas ou de ocorrências indevidas no coletor através do estabelecimento de uma rotina de inspeção com definição das equipes responsáveis, da frequência e da área de atuação da bacia de escoamento.

A escolha do método de inspeção vai variar de acordo com a disponibilidade de recursos da concessionária, podendo ser adotado:

• Um método mais simples e barato com a utilização de hastes com espelhos em sua extremidade e funcionários treinados;

• Ou um método mais sofisticado e caro com o uso de câmeras de filmagem fixadas em robôs.

Imagem de um robô de investigação de tubulações.

A fim de evitar danos ao material do coletor e prejuízos ao tratamento e destino final do esgoto, devem-se fiscalizar as vazões e características de efluentes especiais. 

Para isso, devem ser realizadas inspeções de campo e coletadas amostras para análise em laboratório, as quais devem atender aos limites de composição e vazão recomendados pela concessionária para lançamento na rede coletora.

Outra situação que deve ser planejada é a substituição dos coletores, a qual é composta por instalação do canteiro, sinalização da obra, transporte e manuseio de tubulações, locação de vala, remoção de pavimento, escavação e escoramento de vala, regularização do fundo da vala, remoção e assentamento de tubulação, reaterro da vala, recomposição do pavimento e, por fim, limpeza final do local da obra.

Fotografia do sistema de proteção de uma área em obras.
Sinalização de obras
Fotografia ilustrando a sinalização e isolamento de uma obra.

Manutenção preventiva e corretiva

É de fundamental importância programar ações de caráter preventivo e corretivo, a fim de garantir o bom funcionamento do sistema de coleta e transporte de esgoto. 

A manutenção corretiva é realizada quando a consequência do problema aparece, buscando-se a solução parcial ou total para aquilo que causou o problema. Para que não ocorram improvisos, é necessário que se façam trabalhos rotineiros de manutenção preventiva de modo que mantenha o sistema de esgotos operando integralmente.

A manutenção preventiva, por sua vez, é iniciada a partir do cadastro das redes; além disso, é necessário que se faça registro de todas as ocorrências verificadas dos problemas. Deve-se também inspecionar imóveis potencialmente contribuintes de gordura e orientá-los a construir e promover a limpeza da caixa de gordura sistematicamente. Assim, é possível identificar e monitorar os locais críticos do sistema, onde ocorre reincidência de determinados problemas.

Conclusão

Redes de esgoto são uma das instalações mais cotidianas da vida urbana. Embora sejam conhecidas de todos, frequentemente são instalações infames: geralmente só se destacam quando sua falta é sentida ou quando são afetadas por algum problema. Por isso, é importante conhecê-las, saber executá-las e mantê-las, para evitar grandes transtornos!

E se a área de saneamento básico te interessa, confira também nossos artigos sobre o tratamento de efluentes e o tratamento de águas de abastecimento!

Quer compartilhar sua experiência com a gente, tirar alguma dúvida ou comentar algo? É só falar aqui embaixo ou entrar em contato com a gente!

Para ler mais!

COMPESA – COMPANHIA PERNAMBUCANA DE SANEAMENTO. Diretrizes Gerais para Elaboração dos Projetos de Rede Coletora de Esgoto. 2020.

NBR 9646:1986 – Projeto de redes coletoras de esgoto sanitário.

NBR 9648:1986 – Estudo de concepção de sistemas de esgoto sanitário.

PEREIRA, J. A. R. SOARES, J. M. Rede coletora de esgoto sanitário: projeto, construção e operação. Belém, 2006.

Rede de Capacitação e Extensão Tecnológica em Saneamento Ambiental  (ReCESA). Esgotamento Sanitário: operação e manutenção de redes coletoras de esgotos: guia do profissional em treinamento. Secretaria de Saneamento Ambiental. Brasília, 2008.

Um comentário sobre “Redes de esgotamento sanitário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.