Saneamento e COVID-19

Todos devem saber que o fornecimento de água potável de qualidade constitui um direito fundamental inerente à pessoa humana, assim como as condições de saneamento adequadas são fatores fundamentais para a proteção da saúde da população, em especial durante períodos de surtos de doenças infecciosas.

Tendo em vista que cerca de 35 milhões de brasileiros ainda não tem acesso a rede de abastecimento e metade não tem seu esgoto tratado, abordaremos neste artigo a relação entre a COVID-19 (novo coronavírus – SARS-CoV-2) e o saneamento básico, com suas respectivas recomendações e desafios enfrentados nesse contexto.


Os coronavírus possuem forma esférica e têm seu material genético e nucleocapsídeo envolvidos por uma camada dupla de lipídeos, denominada envelope. As proteínas desse envelope são proeminentes e formam uma estrutura semelhante a uma “coroa”, o que deu origem ao nome, em latim “corona”, dessa família de vírus. A imagem a seguir ilustra os principais constituintes do coronavírus.

Ilustração do coronavírus.

Vias de transmissão usuais

Os órgãos da saúde vêm divulgando amplamente os meios de transmissão do coronavírus, com os dados obtidos até o momento. Os principais meios de transmissão estão ilustrados na figura abaixo.

Fonte: World Heart Federation, 2020 (adaptada).

Porém, alguns estudos realizados pelo mundo (amostras de esgoto do aeroporto de Schiphol, em Amsterdã, bem como amostras das Estações de Tratamento de Esgoto (ETE) das cidades de Kaatsheuvel e de Tilburg, todas na Holanda) apresentaram resultados positivos para a presença do material genético do coronavírus em esgotos de regiões afetadas pela COVID-19. 

Esses dados acendem um novo alerta! Será possível o contágio da doença através da via feco-oral?

Por enquanto, estudos informam que a possibilidade de infecção através dessa via é baixa. Entretanto, aconselha-se que excrementos ou águas residuais dos serviços de saúde, centros de atendimento especializados ou unidades de atendimento aos pacientes infectados com o coronavírus devam ser gerenciados separadamente para serem tratados  (desinfetados) posteriormente.

Além disso, para os pacientes, recomenda-se a instalação de banheiros exclusivos (serviço sanitário e pias), de forma que esses devem estar o mais próximo possível das áreas de hospitalização.

Coronavírus e água de abastecimento

Estação de Tratamento de Água (ETA).

No tratamento convencional de água de abastecimento – aquele encontrado nas capitais e centros urbanos maiores – uma das etapas obrigatórias é a desinfecção, que tem o objetivo de remover (ou inativar) os patógenos presentes na água. O mais usual é a utilização de compostos de cloro para tal função, como hipoclorito.

Embora as pesquisas com o atual coronavírus sejam incipientes, um estudo de Wang et al. (2005) mostrou que o SARS-CoV (outro coronavírus) foi mais suscetível ao processo de desinfecção do que a Escherichia coli. Para uma concentração de cloro residual acima de 0,5 mg/L, verificou-se a inativação completa do SARS-CoV, enquanto essa completa inativação não foi verificada para a Escherichia coli

Para efeitos de comparação, a atual legislação brasileira exige que a água tratada possua cloro residual de pelo menos 0,5 mg/L após o tratamento, e 0,2 mg/L nos reservatórios e na rede de distribuição. Assim, se acontece o tratamento adequado da água de abastecimento, a chance de infecção por meio dessa via é praticamente nula.

Porém, o principal ponto de atuação é exatamente garantir o abastecimento adequado e contínuo da população. A principal maneira de prevenção de contaminação é justamente a higienização frequente, mas muitos locais sofrem com a falta de água nesse momento crítico.

Para essa parcela da população que não recebe água encanada tratada, algumas alternativas podem reduzir o risco de contaminação:

  • Adição de hipoclorito de sódio em solução de 2,5%, deixando a água em repouso após 30 minutos. Para cada 20 L de água, adicionar 2 mL de hipoclorito de sódio.
  • Fervura: por 2 a 3 minutos. É eficaz, porém inacessível para grandes volumes de água.
  • Água potável por meio de caminhões-pipa: deve-se atentar a higiene dos recipientes/reservatórios que receberão essa água, para que não haja contaminação. Ainda assim, a água potável deverá ter cloro residual livre para desinfecção.
  • Garrafões de água mineral: a parte externa dos garrafões deve ser cuidadosamente lavada com bucha (destinada somente a este fim) e sabão ou detergente neutro, com especial cuidado na área próxima à “boca” da garrafa; após isso, o usuário deve remover completamente a tampa do garrafão (e não apenas furá-la) e higienizar a parte que era recoberta pela tampa com papel toalha ou tecido limpo (exclusivo para este fim) e solução de hipoclorito a 0,05% (preparar com duas colheres de sopa de água sanitária em um litro de água). Na ausência de hipoclorito, recomenda-se utilizar álcool a 70%.

Coronavírus e esgoto sanitário

Esgoto sanitário sendo laçando em corpo hídrico sem tratamento.

Embora a legislação brasileira não obrigue a etapa de desinfecção nas ETEs, a carga viral do coronavírus encontrada nas amostras de esgoto não é suficiente para provocar a contaminação, ao que indicam as pesquisas.

Contudo, mesmo que esse material genético viral encontrado não indique a viabilidade do vírus, estudos interessantes têm sido desenvolvidos com o objetivo de monitorar sua presença nas redes de esgotamento sanitário. Dessa maneira, pode-se acompanhar a disseminação espacial e temporal do vírus na zona urbana e, ainda, prever o surgimento de picos de contaminação. 

Estudos desse tipo estão sendo conduzidos no Brasil, nas cidades de Belo Horizonte e Contagem, para verificar a possibilidade de utilizar esse tipo de análise para embasar políticas públicas da área a saúde.


Além de todos os cuidados com relação à situação atual de pandemia, um ponto importante que não podemos esquecer é que um saneamento básico adequado proporciona redução na demanda da saúde pública. Junto a isso, está para ser votado no Senado Federal o novo marco regulatório do saneamento básico (PL 4.162/2019), cuja importância ganha ainda mais evidência durante a pandemia.

O correto funcionamento do saneamento básico é fundamental no enfrentamento da COVID-19. Pois, se junto aos pacientes infectados por coronavírus, as unidades de saúde tenham que absorver aumento no número de pessoas afetadas por enfermidades causadas pela ineficiência do saneamento, essa situação pode levar a um quadro ainda mais grave de calamidade pública.


Para ler mais!

Monitoramento do novo coronavírus no esgoto pode possibilitar o alerta precoce e regionalizado do risco de incidência da COVID-19;

O Engenheiro e o Saneamento;

RECOMENDAÇÕES PARA PREVENÇÃO DO CONTÁGIO DA COVID-19 (NOVO CORONAVÍRUS – SARS-CoV-2) PELA ÁGUA E POR ESGOTO DOMÉSTICO;

Principais tipos de tratamento de efluentes;

WANG, X. W. et al. Study on the resistance of severe acute respiratory syndromeassociated coronavirus. Journal of virological methods, v. 126, n. 1-2, p. 171-177, 2005;

Water and COVID-19 FAQs.

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