Estratégia BIM BR: Disseminação da modelagem da construção no Brasil

No ano passado, o Decreto Presidencial nº 9.983/2019 [1] confirmou a implementação da Estratégia Nacional de Disseminação do BIM no Brasil, que determina como essa tecnologia será coordenada e estimulada no país ao longo dos próximos anos.

Mas o que isso significará para a indústria da construção civil nacional?

De acordo com o livreto do Comitê Estratégico do BIM BR [2], espera-se que a política promova o aumento da produtividade das empresas em 10% e a redução dos custos em 9,7%. Além disso, ao final do prazo estimado – no ano de 2028 – projeta-se o aumento de 28,9% no PIB da construção civil – passando de 2,0% para 2,6% anualmente -, e que o BIM passe a ser adotado por 50% do PIB – do qual integra 5% hoje.

Para alcançar tais metas, o Comitê propõe que a utilização e exigência da metodologia BIM nas obras públicas sejam escalonadas em três fases.

1ª Fase: 2021

O foco desta etapa será em na elaboração de modelos de arquitetura e de engenharia referentes às disciplinas de estrutura, de hidráulica, de AVAC (aquecimento, ventilação e ar condicionado) e de elétrica; na detecção de interferências e na revisão dos modelos de arquitetura e de engenharia; na extração de quantitativos; e na geração de documentação gráfica.

2ª Fase: 2024

Nesta fase, a exigência contemplará algumas etapas que envolvem a obra, como o planejamento de sua execução, a orçamentação e a atualização do modelo e de suas informações como construído (“as built”).

3ª Fase: 2028

Por fim, a terceira fase irá contemplar todo o ciclo de vida da edificação, acrescentando às exigências anteriores os serviços de gerenciamento e de manutenção do empreendimento após sua conclusão.

Ao longo das fases, o Comitê prevê a atuação da Estratégia BIM BR em 8 áreas, como ilustrado na figura a seguir:

  • Governança
  • Infraestrutura Tecnológica e Inovação
  • Arcabouço Legal
  • Regulamentação Técnica
  • Investimentos
  • Capacitação
  • Indução pelo Governo Federal
  • Comunicação
Cronograma da Estratégia BIM do Brasil.

Inicialmente, participarão das fases da Estratégia BIM os órgãos Públicos: Ministério da Saúde; Ministério da Defesa; Ministério dos Transportes, Portos e Aviação Civil; Departamento Nacional de Aviação Civil e Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes. Porém, o Comitê deixa claro que nada impede que outros órgãos ou entidades se vinculem ao programa ou desenvolvam iniciativas de indução, utilização ou exigência do BIM. Com a adesão de novos órgãos, suas necessidades acerca da metodologia BIM também serão inseridas na agenda da Estratégia BIM, ampliando o alcance do programa. 

O que é o BIM?

O BIM, ou Modelagem da Informação da Construção, é entendido como um conjunto de tecnologias e processos integrados que permite a criação, utilização e atualização de modelos digitais de uma construção, de modo colaborativo. Essa maneira de representar a obra e unificar todas as informações que a compõem traz resultados bastante promissores para toda a indústria da construção civil.

Com esse modelo virtual, diversas disciplinas podem atuar de maneira colaborativa e transparente, trazendo um processo mais eficiente e integrado, facilitando o acesso a todas as informações necessárias para o projeto, construção e manutenção.

Através da utilização correta da tecnologia BIM, erros e inconsistências usuais do projeto 2D são reduzidos, permitindo uma visão mais aprofundada do processo construtivo.

Em quais dimensões pode ser usado?

Dimensões BIM.

Projetos conduzidos de acordo com o BIM podem utilizar diversas dimensões de informação. Essas objetivam promover maior entendimento da construção e aproximar o modelo da construção real, nos mais amplos aspectos. Atualmente, trata-se principalmente de dimensões que vão desde o 3D até o 7D.

Dimensão 3D: representação tridimensional

Trata-se de acrescentar a dimensão espacial à representação plana (2D), permitindo visualizar em perspectiva os objetos de todos os projetos da edificação. Assim, facilita a detecção de interferências e conflitos entre as várias disciplinas de um projeto [3].

Análise de interferências das instalações.

Além da tridimensionalidade dos objetos, é possível extrair informações de especificações de materiais e acabamentos, quantitativos de materiais, soluções para revestimentos, entre outros [4]. 

Dimensão 4D: análise de tempo

A dimensão 4D adiciona uma informação extra em relação à anterior: dados sobre o cronograma do empreendimento, a partir de cada elemento do modelo. Essas informações podem ser utilizadas para se obter programação e visualização precisa de como o projeto se desenvolverá, evitando decisões de projeto durante a construção e retrabalho [5]. 

Com isso, permite-se definir quando um elemento será comprado, armazenado, preparado, instalado e utilizado. E ainda planejar o canteiro de obras quanto à movimentação de equipes de trabalho, equipamentos e outros aspectos relacionados cronologicamente [3].

Dimensão 5D: análise de custos

A dimensão 5D passa a agregar informações de custo da obra aos elementos modelados. Assim, o orçamentista ou gestor financeiro pode acompanhar e simular diversos cenários financeiros dos gastos da obra completa ou de etapas específicas, tendo uma previsibilidade assertiva dos gastos envolvidos no empreendimento. E, em caso de alteração de um elemento do modelo, o orçamento poderá também ser atualizado [6]. Campestrini et al. (2015) apontam ainda a possibilidade de retirar curvas ABC da obra, a fim conhecer os principais custos da edificação e direcionar a estes maior atenção.

Os benefícios de ligar custos ao modelo incluem a fácil visualização de custos em 3D, receber notificações quando mudanças são feitas e a contabilização automática de componentes e sistemas inclusos no projeto. Além disso, informações de custo aliadas ao tempo podem prever o orçamento durante todo o contrato da obra, permitindo o controle mais preciso de gastos [5].  

Dimensão 6D: avaliação de sustentabilidade

Esta dimensão adiciona à obra informações de sustentabilidade, com o objetivo de obter uma obra mais eficiente e sustentável. Para isso, são feitas análises de eficiência energética, consumo de energia e pegada de carbono. Essa avaliação possibilita a obtenção de selos de construção sustentável [7].

Entre as principais certificações e selos para construção sustentável estão o Alta Qualidade Ambiental do Empreendimento (AQUA) e o Leadership in Energy and Environmental Design (LEED).

Símbolo da Certificação AQUA.
Certificação AQUA.
Símbolo da Certificação LEED.
Certificação LEED.

A dimensão 6D também é associada ao ciclo de vida da construção, devendo-se assim realizar avaliação sustentável que inclua a produção dos materiais, a construção, a operação, a manutenção e a demolição e eliminação. Desse modo, é possível analisar os impactos ambientais e os custos de ciclo de vida para todas as fases da edificação [8].

Dimensão 7D: gestão da construção

O modelo 7D promove o aumento da informação que visa a manutenção preventiva e a gestão do empreendimento. Esses dados introduzidos englobam datas de instalação de equipamentos, garantias, contatos dos fornecedores e fabricantes, documentos com a descrição dos ativos e manuais de instalação, funcionalidade dos espaços criados, entre outros. 

Com isso, gestores da edificação podem compartilhar informações com empresas que prestam serviços. E, ao identificar algum problema ou plano de manutenção, podem enviar uma ordem de serviço eletrônica com todas as informações necessárias para a empresa que irá prestar o serviço [6].

Uma ferramenta que se alia à dimensão 7D do BIM é a Realidade Aumentada, a qual inclui elementos virtuais que interagem com o que já existe. Assim, é possível unir projetos virtuais à realidade do canteiro de obras – aumentando a eficiência e precisão, reduzindo a ocorrência de erros e economizando tempo, dinheiro e recursos. Para isso, são utilizados óculos que possibilitam ver através das paredes e entender o caminho de instalações e camadas de material [9].

Aplicação da dimensão 7D BIM.
Utilização de óculos de Realidade Aumentada [9].

Para ler mais!

[1] Decreto nº 9.983/2019: Estratégia BIM BR

[2] BIM BR – Construção Inteligente 

[3] COMARELLA, C. W.; FERREIRA, E. V.; SILVA, R. K. P. da. Níveis de desenvolvimento BIM de guias nacionais e internacionais – Estudo de caso. 2016. 103 p. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Engenharia Civil) – Universidade Positivo, Curitiba.

[4] CAMPESTRINI, T. F.; GARRIDO, M. C.; MENDES JR, R.; SCHEER, S.; FREITAS, M. do C. D. Entendendo BIM. UFPR. Curitiba, 2015.

[5] BIM dimensions – 3D, 4D, 5D, 6D BIM explained

[6] BIM: Tudo o que você precisa saber sobre esta metodologia

[7] Guia completo: BIM 6D sustentabilidade

[8] MARTINS, B. F. B. Utilização de BIM e métodos de sustentabilidade em elementos na construção. 2018. 114 p. Dissertação (Mestrado em Engenharia Civil) – Faculdade de Engenharia Universidade do Porto, Portugal.

[9] SOUZA, E. 9 tecnologias de Realidade Aumentada para construção. 2019. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/914441/8-tecnologias-de-realidade-aumentada-para-construcao. Acesso em: 08 nov. 2019.

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